Drogas, o debate necessário

Frequentemente, a informação veiculada nos meios de comunicação produz um travo na alma. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam na passarela da mídia.  Os telejornais, e até mesmo os diários mais sóbrios, ficaram de joelhos para o espetáculo. Artigo publicado por Carlos Alberto Di Franco, no Estado de São Paulo.

O usuário, de fato, precisa de ajuda, de apoio, de tratamento e não de cadeia

O crime foi o resultado de alguns desvios: o machismo da sociedade que trata a mulher como objeto de posse descartável, a cultura da impunidade, a disseminação das drogas e os valores frágeis de garotas extasiadas com ícones de plástico, mas carregados de dinheiro e glamourizados pelas engrenagens do entretenimento.

Observa-se, igualmente, um crescente movimento a favor da despenalização das drogas, sobretudo da maconha. O dependente, de fato, não deve ir para a cadeia. Ele precisa de ajuda, de apoio, de tratamento. Agora, o traficante, frio e calculista, deve pagar por seu crime com pena proporcional à gravidade da sua perversidade.

Não se devem, igualmente, subestimar os efeitos nocivos da maconha para a saúde do usuário, mas aqui eu vou escrever sobre o avanço das drogas, que ameaça transformar o sonho da juventude numa terrível frustração. A violência avança, impune, no Brasil e o seu principal estopim – a distribuição e o consumo de drogas – continua fora da agenda pública e do debate dos candidatos.No mercado da cocaína o Brasil exerce triste liderança. O País é hoje o maior espaço consumidor da droga na América do Sul e provavelmente o segundo maior nas Américas. Cresce em progressão geométrica a demanda doméstica. Ademais, somos, hoje, um importante corredor de distribuição mundial.

Ruy Castro, escritor de minha predileção e dono de uma sinceridade afiada, abordou o tema em artigo na Folha de S.Paulo. “A Secretaria Nacional Antidrogas, órgão do governo federal, quer criar uma agência para pesquisar os “efeitos medicinais” da maconha. Se trabalhar direito, será uma decepção para os usuários da erva: a maconha “medicinal” não viria para ser fumada – mesmo porque esta tem todos os males do tabaco e mais alguns.”

“A lista das mazelas provocadas pela maconha fumada, estabelecida por médicos da Universidade de Oxford e citada na Folha (Tendências/Debates, 22/10) pelos doutores Ronaldo Laranjeira e Ana Cecília Marques, inclui dependência química, bronquite crônica, insuficiência respiratória, risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade, depressão, episódios psicóticos, leseira, apatia e baixa no rendimento escolar.”Multiplicam-se, paradoxalmente, declarações otimistas a respeito das estratégias da redução de danos. O essencial, imaginam os defensores da nova política, não é a interrupção imediata do uso de drogas pelo dependente, mas que ele tenha uma melhora em suas condições gerais. A opção pela redução de danos pode ser justificada em determinadas situações, mas não deve ser guindada à condição de política pública. Afinal, todos sabem que, assim como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. Embora alguns usuários possam imaginar que sejam capazes de controlar o consumo, cedo ou tarde descobrem que, de fato, já não são senhores de si próprios.

“Donde, se provadas as qualidades terapêuticas da maconha – embora ninguém tenha conseguido até hoje descobrir sua superioridade em relação às substâncias tradicionais -, seu uso deveria se dar em forma de gotas, pomada, supositório ou o que for, e não enrolada, queimada e tragada. (…) A secretaria faria melhor se concentrasse seus esforços numa guerra que o Brasil se arrisca a perder: contra o crack, a pior droga já inventada. E a mais covarde”, conclui Castro.

A verdade precisa ser dita. Não se pode sucumbir à síndrome do avestruz quando o que está em jogo é a vida das pessoas. O hediondo mercado das drogas está dizimando a juventude. Ele avança e vai ceifando vidas nos barracos da periferia abandonada e no auê dos bares e boates frequentados pela juventude bem-nascida. Movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, na prática, estratégias meramente repressivas. A prevenção e a recuperação, únicas armas eficazes a médio e a longo prazos, reclamam um apoio mais efetivo do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de autoajuda que lutam pela reabilitação de dependentes.

Tenho acompanhado o excelente trabalho realizado por algumas comunidades terapêuticas. Sem uso de medicamentos e investindo num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido bons índices de recuperação. Visitei algumas dessas instituições. Aponto, entre outras, uma instituição de referência: a Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga, no interior de São Paulo. Com gravíssimas dificuldades financeiras e sem nenhum apoio dos governos, embora não faltem falsas promessas de ajuda de políticos oportunistas, a entidade tem sido responsável pela recuperação de inúmeros dependentes químicos.

Merece um registro. Os governos não se dão conta de que o trabalho dessas instituições repercute diretamente na qualidade da segurança pública. Elas rompem o círculo vicioso das drogas e criam o círculo virtuoso da recuperação e da ressocialização.

Debates no Congresso Nacional sugerem que as comunidades terapêuticas, bem como as demais instituições idôneas que trabalham na recuperação de adictos, possam, num futuro próximo, receber recursos provenientes do Fundo Nacional Antidrogas e do Sistema Único de Saúde (SUS). Seria uma providência inteligente. É sempre melhor apoiar o que já funciona do que cair na tentação de criar novas estruturas. Afinal, um adicto recuperado é o melhor aliado na luta contra as drogas.

 

Carlos Alberto Di Franco é doutor em comunicação, é professor de ética e diretor do master em jornalismo.

Publicado em Notícias.